segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Um animal

Acordei cedo, esta manhã. Enquanto repousava na cama, a saborear os últimos minutos de paz que teria neste dia vindouro, olho pela janela e vejo um Sol reluzente no horizonte. Sorrio maldosamente. Levanto-me num salto, e sinto-me nauseado. Todo o alcool que bebi na noite anterior estava agora a ser queimado no meu organismo. Mas sorrio sempre.

Entro dentro da casa de banho, e encosto-me ao lavatório. Vejo-me reflectido no espelho, e vejo a casca de carne que continuo a usar desde que nasci. Moreno. Constituição normal, mas a tornar-se forte. Olhos castanhos comuns, mas mordazes. E é aí, nesse momento, em que começa o dia. Em que desperta a onda de sentimento, em que desperta o mais profundo da minha alma.

É nesse momento em que ele toma controlo, que me sinto livre. O verdadeiro eu.

Já estou vestido. Casaco de cabedal aos ombros, oculos na cara. Saio de casa, e meto-me num autocarro. As pessoas olham para mim como se fosse d'outro mundo. E eu ? Sorrio. Aqueles olhares petulantes, vindos de pessoas que estão tão abaixo de mim na cadeia alimentar ... são lixo.

Saio do veículo, e entro na minha escola. E o sorriso apodera-se da minha cara novamente. As pessoas que vejo, tristes e decadentes dentro das suas próprias prisões. Eu já superei isso à demasiado tempo. Aprendi a viver com ele. E neste momento, sinto-me feliz por isso.

Voltam a olhar-me ... mas quem devolve o olhar, é o animal. Aquela percepção de sentimento, aquele ódio miudinho que me percorre o sangue. E eu controlo-me. Simplesmente guardo o que tenho a fazer a sete chaves. Apenas temo, o dia em que quiser soltar tudo o que me atormenta.

Depois de muito me rir da decadência e podridão de outros, volto para casa. Ando uma boa meia hora, nunca paro. Queimar esta adrenalina toda é uma benção. Chego ao ponto de partida novamente, e faço exercicio para me cansar. Mas na realidade, tudo o que faço, é para o cansar a ele. Ele é que me ajuda. Ele merece o seu descanso.

Deito-me, exausto. O meu condenado corpo pode respirar calmamente novamente. E o animal descansa, esperando um novo dia ...

5 comentários:

Anónimo disse...

Cá estou eu outra vez. Sempre que posso venho aqui "vasculhar". Gostaria de fazer uma pergunta, se me permites, e se tenho direito. Esse ódio, é ódio puro que te corre no sangue, ou será mais uma carapaça?
Questionei-me sobre isso ao ponto de considerar-me a mim, possuidora desse mesmo ódio. Faz sentido. Mas ao mesmo tempo os "monstros" continuam a perseguir-nos...


...

Anónimo disse...

É sempre giro ser questionado, sinceramente.

O ódio ao qual me referi, foi o mais veemente dos ódios. Aquele que te queima a alma e te traz as lágrimas aos olhos.

Agora, ser uma carapaça é meramente opcional. Há quem o exteriorize, há quem não o faça. Eu gosto de o fazer, gosto de fazer saber o que odeio ou não.

Acho que mascaras só funcionam quando há um objectivo a atingir subtilmente, e temos de enganar todo o rebanho.

Anónimo disse...

Permite-me discordar do último parágrafo. Por vezes quem tem uma máscara, não tem objectivo. Melhor, talvez tenha: O de se livrar dela... Não sei se me faço entender. Se se quisesse enganar o rebanho, sim , ser-se-ia um jogador. O mascarado é menos que isso. Usa a máscara em defesa. Usa a máscara em tentativa. Talvez seja um miserável, o mascarado. Ou talvez alguém com mais de dois neurónios perceba que não. Mais uma questão. Será que não aprendeste a gostar desse ódio? (que chata que ela é.)

Anónimo disse...

Eu não precisei de aprender a gostar do ódio. Precisei sim de saber usá-lo em proveito próprio, de saber controlá-lo.

Mas nunca desgostei dele, sinceramente, foi ele que me alimentou durante vários anos da minha vida, e me fortaleceu para ser quem sou hoje.

Anónimo disse...

Acreditarias num sorriso inocente de um desconhecido com quem te cruzas no passeio?