terça-feira, 16 de novembro de 2010

Calma

Louco e cego, perdi aquilo a que um dia chamei de sanidade.
E sabendo isto, com seria sobriedade
E sabendo isto, com tamanha serenidade
Dou comigo a teimar numa injusta veleidade
Que seria um dia voltar a mim.

Mas mesmo assim, qual enorme capricho
Querendo rogar aos Céus injustiças intermináveis
Dou comigo sereno, calmo e pálido,
Sabendo que tornei as chamas que sempre odiei
Em dores simples, até mesmo aceitáveis.

Qual animal manso, triste, empobrecido
Que me tornei eu ?
Onde um dia reinou a mais pura das forças,
O mais forte ódio, a cólera na carne vivida ...
Hoje, alma penada. Dor na pele sentida,
Que valor já não dá à coisa querida.

Gelo duro, fria alma
Todo o ódio, hoje é calma.
E a calma não me convém. Não me sustém.
A calma de nada serve a não ser a outrém.
Mas não a mim.

A mim não me leva, não me move
Não me faz sentir, não me comove.
Não me entristece, não me dá ganas ao gritar
Não dá rubor às minhas palavras,
Não dá sentido ás minhas mágoas.

Calmo, mas não vivo.
E se vivo calmo, vivo por viver
Se algo vejo, seja apenas por ver
E se me movo, é por apenas mover.
Não porque deva, mas apenas porque posso.

Que me dilacerem novamente as facas que sempre reneguei,
Oh, momento doce que tanto odiei.
Hoje fazem-me mais falta
Do que esta angustiosa calma.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Se soubesse, não tinha subido.

Se soubesse, não tinha subido,
Se pudesse, voltava atrás.
Na cama estendido, com o pensamento voraz.

Se soubesse, não tinha subido,
A avenida Humberto Delgado.
Às docas não tinha ido, na relva não me tinha sentado.

Se soubesse, não tinha subido,
Até às colinas do castelo.
Até à torre mais alta, até ao céu mais belo.

Se soubesse, não tinha descido,
Aquela escadaria na escudridão.
Tinha ficado cá em cima, com a guitarra e o garrafão.

Afinal, ainda bem que subi,
Muitas memórias guardei.
Viagens bem altas atravessei e a felicidade, por momentos, encontrei.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Tu.

Tu,
Austera divindade, protector silencioso.
Com tuas palavras me matas, e com as mesmas me salvas.
Com teu chicote me vergas, com tua mão me ergues.

Tu,
Meu Demiurgo, do meu sangue criador.
Com teu olhar me fulminas, me prostras perante as chamas
Que é o Inferno de tentar atingir, e não conseguir.
Os teus objectivos ...

Tu,
Auto-proclamado Senhor, Ditador eleito pela Vida.
Que me amas, e que me odeias.
Que me vês em ti, e que te distancias do teu mesmo reflexo.
Que te envergonhas do barro onde me moldaste,
Tal desperdicio.

...

Pai,
Principio e fim, o mais puro alfa e omega,
Do imaginar e do tentar, do querer alcançar
Mas nunca atingir.
Que queres de mim ? Porque me empurras ?
Com todo o amor, me atiças com o mais quente ferro
Para o sucesso que me desejas.


Mas será assim que o consigo ?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Conhecimentos transversais, a work in progress.

Vivências passadas, esquecidas na imensidão do presente. Toda a vastidão de um mundo desvanecida numa questão de dias. A súbita mudança que torna duas pessoas que se conheciam desde que aprenderam a falar, em completos desconhecidos. Parece incrível a facilidade com que uma dezena de meses apaga, de certo modo, memórias de uma dezena de anos. A mudança implica conhecer o novo e, quer queiramos quer não, esquecer o antigo. O tempo cria uma barreira, um muro, uma fronteira que delimita o que outrora fora um campo aberto. O tempo arruma, de uma forma burocrática, as memórias passadas no imenso arquivo que tem um letreiro por cima onde podemos reconhecer as letras, que ordenadas da forma correcta, formam a palavra Passado.


'A vida é tua, segue o teu caminho. Não te esqueças é de pagar portagens.'
in Conhecimentos transversais, a work in progress.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Até nunca 2009

Este jornal já não é o mesmo. E para eu o desenterrar, apenas venho desprezar mais uma vez a minha tristeza, na esperança de passar despercebida a todos os que poucos que por aqui têm passado, ou passaram..

Ressinto todo o meu recente passado. Este ano não está a ser melhor que o anterior, nem será.

Nunca.

O próximo ano, idem, idem. O seguinte, também não. Eu declaro a minha eterna nostalgia por 2009. O melhor ano que alguma vez terei, certamente. Não reconheço nenhuma melhoria no futuro, em qualquer perspectiva. Fui alegre o suficiente para me contentar com o pouco que tinha, que me irá ser sempre tudo, tudo o que talvez nunca volte a ter.

Após um ano, observo (a partir das minhas prévias mensagens) que se tratou de um ano rico em experiências sociais, especialmente sentimentais.
Sobretudo sentimentais.

Cada vez mais me devora, este ressentimento que ousa em não se evacuar do meu íntimo, o qual eu escondo através de fúteis mensagens publicadas em redes sociais que satisfatoriamente acreditam que me encontro felicíssimo, e alegre!

Mas não, não é essa a realidade. NÃO SOU UM PERFIL. Sei que o tenho de fazer, sei que tenho de dar uma boa imagem, uma imagem segura e confiante de alguém que sabe como, quando e o que quer, ninguém gosta de pobres coitados.

Quero ser explícito, mas o anonimato impede-me de soltar esta dor que possuo.. Quero exclamar que estou farto, que necessito de um novo começo.

Mas a aflição do novo começo é demasiado pesada para levar sobre a angústia nostálgica do passado. Procurem-me, estarei sempre a aguardar uma boa conversa.

Este capítulo por aqui se encerra, adiante venha o mais paginado.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Carapaças e carcaças.

Qual será a quantidade de merda que uma pessoa aguenta ? Quanta merda terá que entrar ainda até que rebente ? Tanta revolta, tanto ódio, tantas incompreensões. A cada dia que passa reprime-se mais um pouco. Vá, mais um nadinha. Uma coisa é certa, nada é infinito. Vai explodir e quando explodir não será bonito. Quais serão as repercussões de anos a absorver ódio e a conter a revolta ? Chegará a altura que as correntes partem e a mordaça solta-se. E não vai ser agradável. Nada mesmo. Que se foda, agora já é tarde. O que tiver de ser, será. Só espero que rebente no local certo, com as pessoas certas e que se solte tudo. Quero respirar toda esta revolta e suar todo este ódio que contenho em mim. Quero libertar-me deste peso que faz de mim o que sou. Quero deixar de ser um tipo calmo, pacífico e rebentar. Quero causar toda a dor que senti, que sinto e que sentirei. Quero dar um murro na parede com todas as minhas forças e sentir os ossos da mão a estalar.Quero recomeçar. Quero uma folha em branco. Quero muita merda.

'My pain is constant and sharp. And I do not hope for a better world for anyone, in fact, I want my pain to be inflicted on others.'

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A place for my head

Eu quero escrever.. eu juro que sim.
Mas não é fácil. Não é fácil escrever algo que me agrade, quanto mais a outros.


Isto, porque tudo se encontra fodido e em decadência.

E a culpa é tua. Tu, isento de humildade, de compaixão, de condescendência, de bondade, de vergonha. Tu que lês, e te sentes ofendido, "Que anónimo é este que se julga no direito de me julgar?".

Sou humano, e sei tudo quanto a ser humano.

Tu que roubas, não me chames de criminoso. Tu que mentes, não me chames de falso. Tu que trais, não me chames de infiel. Tu que ameaças, não me chames de violento. Tu que és louco, não me chames de insano.
Tu que me apontas o dedo, e pela calada tomas o delito, não tens o direito à tua mísera indignação. Compra um espelho, ou vê-te no imundo rio em que te banhas, porco.

Por tua causa, vivo num mundo que não quero para mim, nem para os meus. Por tua causa, sofro.

Mas não reparas, não te incomodas, não te preocupas nem te consternas. Despreocupado, encolhes os ombros e exclamas "Nada há a fazer", como egoísta que és. O Mundo gira sobre si e acabaste de foder isto um pouco mais.

Por cada lamento perdido, por cada ajuda desaparecida, por cada consciência tranquila, e por cada coração fugido, este mundo se desaba.

Por tua causa, sofro.
Por minha causa, sofro.
Por tua causa, sofres.
Por minha causa, sofres.
Por nós, e por sermos como não somos, sofremos.

Somos merda, e eu já não quero este mundo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Cá fora

Cá fora faz frio. Cá fora existe dor, mágoa e angústia. Aí dentro é muito diferente. Aí dentro tu mandas. Tu tens o poder. Tu causas a dor, a mágoa e a angústia. Tu tens o destino nas tuas mãos, se é que este existe. Tu rebitas a vida a um rótulo imundo. Mas um dia esse mesmo rótulo, essa mesma imundice, cada filha da puta de rebite que usaste para manter tudo sob o teu controlo, virar-se-ão contra ti. O feitiço virou-se contra o feiticeiro, nunca ouviste ? No teu caso, o feitiço virar-se-à contra o feiticeiro. A mesma dor, mágoa e angústia que criaste e abusaste, senti-la-às na pele, na mente. E aí, aí sim, verás como são as coisas cá fora. Cá fora tudo é diferente. Não tens o teu castelo, não tens a tua escolta. Tens um fosso de merda onde só há merda e nada mais que merda. Merda, sabes o que é ? É aquilo que crias a cada segundo que respiras, a cada passo que dás, a cada acção que tomas, a cada palavra que dizes, a cada segundo que vives. A tua presença provoca-me náuseas. A tua presença torna feio o que antes fora bonito. Tu és o culpado daquilo que te queixas. Tu e só tu. Julgas-te um rei rodeado de súbditos. Julgas-te intocável. O teu cheiro a mesquinhez sente-se a quilómetros de distância. És repugnante mas julgas-te apetecível. Metes nojo ao nojo. Mas não metes medo. Qualquer rei rodeado da sua escolta tem tomates. Quero-te ver cá fora. Quero-te ver na merda. Quero-te ver rebolar no nojo. Bem no meio da escória que tanto reprimes e odeias. De onde vem esse ódio ? Boa pergunta. Só tu o sabes, ou não. Mas deve ter sido das pilas que tiveste que chupar para chegares onde chegaste. Grande feito ? Não. A chupar pilas ganham as putas a vida e mesmo assim são seres que ao pé de ti, parecem princesas. Dizes que tens a faca e o queijo na mão. Cá fora não há queijo, só há facas. A tua vida é uma merda e deve ser por isso que tens prazer em foder a dos outros. És um herói. És um herói nessa tua mente limitada e atascada em merda. Mas cá fora não há heróis. Cá fora o sol não brilha como brilha no teu mundo encantado. Cá fora não há cores. Cá fora há merda. Lembra-te disso quando cá vieres. E sei que um dia virás. Cá fora faz frio, muito frio.