terça-feira, 16 de novembro de 2010

Calma

Louco e cego, perdi aquilo a que um dia chamei de sanidade.
E sabendo isto, com seria sobriedade
E sabendo isto, com tamanha serenidade
Dou comigo a teimar numa injusta veleidade
Que seria um dia voltar a mim.

Mas mesmo assim, qual enorme capricho
Querendo rogar aos Céus injustiças intermináveis
Dou comigo sereno, calmo e pálido,
Sabendo que tornei as chamas que sempre odiei
Em dores simples, até mesmo aceitáveis.

Qual animal manso, triste, empobrecido
Que me tornei eu ?
Onde um dia reinou a mais pura das forças,
O mais forte ódio, a cólera na carne vivida ...
Hoje, alma penada. Dor na pele sentida,
Que valor já não dá à coisa querida.

Gelo duro, fria alma
Todo o ódio, hoje é calma.
E a calma não me convém. Não me sustém.
A calma de nada serve a não ser a outrém.
Mas não a mim.

A mim não me leva, não me move
Não me faz sentir, não me comove.
Não me entristece, não me dá ganas ao gritar
Não dá rubor às minhas palavras,
Não dá sentido ás minhas mágoas.

Calmo, mas não vivo.
E se vivo calmo, vivo por viver
Se algo vejo, seja apenas por ver
E se me movo, é por apenas mover.
Não porque deva, mas apenas porque posso.

Que me dilacerem novamente as facas que sempre reneguei,
Oh, momento doce que tanto odiei.
Hoje fazem-me mais falta
Do que esta angustiosa calma.

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