domingo, 21 de dezembro de 2008
Silent screams and shattered dreams
Saí do carro, e olharam para mim. Milhares de olhos fitaram a minha postura, a minha pessoa, o meu todo. Viram-me a carne, olharam-me a alma. Um monstro enjaulado, preso por correntes à parede de tijolo que é a vida. Abstraí-me destes pensamentos sem sentido, e senti o frio na pele. Por hoje, o Sol já havia morrido, e a Lua reinava rainha do céu escuro. A passos leves e curtos, ando calmamente pela rua, sendo trespassado por um frio mordaz que me queima a pele. Estupidez, fruto da minha arrogância. Nas ruas desta maldita cidade dos condenados, tudo apesta a morte e dor. Foi naquele bar que dois bandos se reuniram para resolver as suas diferenças, por meios violentos como seria normal. Morreu uma rapariga de 17 anos que nada tinha a ver com o assunto. Foi naquela parede que encostaram e esfaquearam um miúdo. Por um boné e uma nota. Ainda consigo ver a sombra do seu sangue, e acredito na dor dele. Nos últimos momentos, agarrado ao peito. A última lembrança da sua família. Dos seus amigos. De uma vida perdida, pela futilidade do nojo humano. Contenho as lágrimas nos olhos, e absorvo mais raiva. Pensar assim não me faz bem, nunca fez. Odeio isto. Odeio isto tudo, e vou sempre odiar. Já desci uma escadaria, e vejo mais um exemplo da dor. Pobre homem, deitado no chão. Coberto de farrapos, uma perna partida, com um miserável pedaço de cartão onde pedia, pelo amor do seu Deus, para lhe darem uma moeda. Ele viu-me. Estendeu o braço. E eu? Virei-lhe a cara. Reneguei-lhe uma ajuda. Sou um nojo, e isso vê-se. Cheguei ao meu destino. Vejo os meus amigos. Sentados numa mesa de madeira, bebem a largos tragos, fumam a longos bafos. Acolhem-me com um sorriso aquecedor, mas eu continuo a lembrar-me do que vi. Do que senti. Tenho as lágrimas a querer escapar-me pelos olhos, e faço tudo para o impedir. Que diriam eles se me vissem a chorar? Pensariam que sou um fraco. Mas eu não sou fraco. Ou será que sou? Já não sei nada, e nada me interessa. Peço uma cerveja. E lembro-me da moeda que reneguei ao pobre homem, ao lado da escadaria. Eu não sou um homem, caralho. Sou um rato. Bebo uma. Bebo duas. Começaram os múltiplos. Já tenho um cigarro na mão. O bar fechou, e saímos a cambalear. Uns sorriem. Outros choram. E eu. Eu estou no meu canto, de olhos baixos, a amaldiçoar a noite. Subimos a rua. Num cruzamento, separam-se de mim com um aperto de mão. Subo a ponte. Estou a chegar a casa, posso finalmente deitar-me, posso finalmente esconder o meu rosto e ser ninguém. Vejo um cão. Sujo, velho, doente. Tinha uma pata ferida. Tiro as chaves do meu bolso, estou quase a chegar a casa. Ele segue-me, como que me pedindo ajuda. Abro a porta de vidro, e ele fica lá fora, a olhar para mim. Já não aguento mais. Choro, num choro triste e solene. Não aguento mais esta dor. Eu, eles, o mundo. Lixo, nojo completo e imoral. Desço as escadas, e entro em casa. Dizem-me boa noite, perguntam-me se estou bem. Não me digno a responder, e fecho a porta do meu quarto. Puxo dos lençóis acima, e deito-me. Acabou o dia. Antes de adormecer, amaldiçoo o mundo. Amaldiçoo as pessoas. E amaldiçoo-me a mim mesmo, por ser como sou. Não há nada a fazer … mesmo nada a fazer.
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